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09 JUN 2007

Gênova: vocês, G8, nós, 6 bilhões

Um olhar espetacular sobre as manifestações em Gênova

Fabio Salvatti

Por todos nuestros muertos,
Ni un minuto de silencio.
Toda una vida de lucha.

Uma foto estampada nas capas de diversos jornais do mundo no dia de 21 de julho de 2001 mostrava um jovem encapuzado, estirado na rua, sobre uma poça de sangue. Seu nome era Carlo Giuliani e ele havia sido alvo, no dia anterior, do disparo da arma de um carabiniere durante as manifestações contra a reunião do G8 em Gênova, Itália.

Carlo não foi a primeira vítima dentre os manifestantes contra o processo de globalização capitalista iniciado nas das últimas décadas do século passado. Antes, outros manifestantes foram mortos em uma passeata contra o Banco Mundial, na Nova Guiné; em uma manifestação contra a privatização da água na Bolívia; houve o assassinato de sem-terras em Eldorado dos Carajás; inúmeros feridos nas manifestações de Seattle, Praga, Quebéc, etc.

A diferença é que Carlo foi alvejado em frente às câmeras, num momento em que a atenção do mundo (via mídia) estava voltada para Gênova. A esse respeito, escreveu Eugenio Bucci:

O que me incomoda nessa cobertura toda não é o que ela vem mostrando, nem as tintas de que ela se vale, mas exatamente o que não ela mostra e não ilumina. É como se exibir a morte fosse o bastante. Para uma imprensa viciada em imagens de impacto, a cabeça ensangüentada de Carlo Giuliani é o olho do furacão. E basta. O nosso olho - nosso olho de público, nosso olho de jornalistas, tanto faz - fica hipnotizado e não consegue se desprender daí. Não vê o entorno, não estabelece as relações necessárias. Assim, caímos numa inversão: a imagem forte, que nos alerta, serve para nos cegar. As razões menos superficiais nos escapam (BUCCI, 2006).

O que incomoda Bucci é a espetacularização da imagem do manifestante morto. A imagem (que alerta e serve para cegar) de Carlo virou um símbolo irredutível de um movimento amplo de resistência global. O "entorno", as "relações necessárias", escapam ao símbolo. A imagem espetacularizada, para Debord, é em si, "o espetáculo não deseja chegar a nada que não seja ele mesmo" (DEBORD, 1997: 17).

A imagem de Carlo é capital midiático, recuperado tanto pelo movimento de resistência global quanto por seus detratores. A revista Times, por exemplo, considera Carlo "um homem traído pela falsa promessa de que a violência (...) é o melhor caminho para se avançar numa causa política". E aconselha que se siga o velho provérbio: "você colhe o que você planta" (SOLOMON, 2006). Fazendo coro, o colunista do jornal Houston Chronicle, Cragg Hines, afirmou "é trágico, mas ele estava procurando por isso, e encontrou" (idem). Assim, evita-se a discussão das "razões menos superficiais", dos processos que conduziram Carlo à condição de símbolo.

Perspectiva diferente parece lançar Fausto Paravidino, em seu texto teatral Gênova 01. Descompromissado das supostas imparcialidade e objetividade jornalísticas, Fausto faz um militante relato dos eventos de Gênova. Ele descreve como a notícia da morte de Carlo foi transmitida ao primeiro-ministro italiano: "Um sub-secretário do governo alcança Berlusconi com estas palavras 'Presidente, tem o morto'. Não um morto, o morto. O que já se esperava" (PARAVIDINO, 2005: 6). Ao contrário da Times ou de Hines, que preferem responsabilizar Carlo por sua própria morte, apontando sua verve revolucionária como a "falha trágica" que o conduziu à danação, Paravidino busca deflagrar a necessidade que as autoridades italianas (representando toda a força de repressão ao movimento de resistência global) tinham de demonstrar o seu poder através de um assassinato. Deliberadamente, converteram uma ação de repressão em uma imagem, em uma representação.

A tentativa da polícia e de parte da mídia foi a de associar a imagem de Carlo com o grupo Black Bloc, grupo de manifestantes a quem freqüentemente se atribuem depredações durante manifestações do movimento de resistência global. A orientação dos Black Bloc é fortemente anarquista, sem lideranças ou estrutura organizacional, com linhas ideológicas oriundas dos movimentos autônomos europeus. Usam máscaras e roupas negras. Sua tática é a "ação direta", isto é, atos que não se restrinjam a "protestos simbólicos", como podem ser caracterizadas as passeatas pacíficas ou mesmo outras estratégias criativas não-confrontacionais (como teatro de rua, por exemplo). Algumas "ações diretas" são a construção de barricadas com latas, paus, pneus, blocos de concreto, etc; a depredação de "símbolos do capitalismo', como bancos, vitrines de boutiques, postos de gasolina, shopping centers, grandes redes de supermercado e carros de luxo (pequenas lojas, residências e carros populares são poupados); resposta ao ataque da polícia com pedras e coquetéis Molotov. Os Black Blocs se opõem a vários dos grupos que consideram ineficazes (os pacifistas) ou reformistas (os Fóruns Sociais, por exemplo).

O encontro de Gênova inaugurou uma nova fase na história do movimento de resistência global. Primeiramente, as forças da ordem (responsáveis por evitar que os manifestantes entrassem na região central da cidade, conhecida como Zona Vermelha, onde se dava a reunião do G8) imprimiram a repressão ao movimento com um vigor não antes revelado. Segundo, que o Black Bloc foi alvo de uma campanha de demonização da imprensa que acabou por surtir efeito inclusive entre parte dos manifestantes, que pretendeu isolar o Black Bloc como os "manifestantes do mal". Em terceiro, a descentralização e livre-associabilidade ao Black Bloc permitiu que se infiltrassem nele policiais, neo-nazistas e hooligans, muitos dos quais responsáveis por um deliberado incitamento de confronto com as forças policiais.

Paravidino, apesar de se posicionar claramente em oposição ao Black Bloc, levanta a dúvida sobre a origem de distúbios em Gênova:

Mas em Gênova os Black Bloc eram muito diferentes de como se apresentaram nas outras manifestações. Conseguiram praticamente intervir em todas as "praças temáticas" que não tinham um serviço de ordem interno. Nunca foram parados pela polícia. Alguns deles foram vistos saltando de carros da polícia antes de dar início às devastações. Evidentemente é fácil infiltrar-se em um grupo de indivíduos não organizados. Evidentemente os Black Bloc são muito úteis a quem quiser levantar o nível de violência do combate (PARAVIDINO, 2005: 5).

A imagem de vilania atribuída (justa ou injustamente) ao Black Bloc atende às expectativas das forças de repressão, da mídia e da opinião pública, ansiosas por um bode expiatório, mas também de parte do movimento de resistência global, que, ao recusar solidariedade com o grupo, reivindicam legitimidade em oposição ao "terrorismo" dos Blacks:

A primeira estratégia de criminalização em Gênova foi a transmissão de uma imagem de caos generalizado que cobre com uma cortina de fumaça o que está em jogo. A segunda é pôr toda a ação de destruição de propriedade no mesmo saco. A terceira é pôr toda ação de confrontação debaixo da marca "Black Bloc". Assim se constrói um mito, o inimigo público (LUDD, 2002: 198). 

Além do assassinato de Carlo e dos confrontos envolvendo o Black Bloc o encontro de Gênova foi marcado por um evento menos noticiado e muito mais trágico. No dia 21 de julho de 2001, quando o encontro já havia acabado e tanto os líderes mundiais quanto os manifestantes se preparavam para ir embora, a escola Armando Diaz, que funcionava como alojamento para quase cem jornalistas e ativistas, foi atacada por cerca de 200 carabinieri durante a madrugada. As pessoas lá alojadas foram surpreendidas enquanto dormiam, espancadas e levadas para o hospital ou para a prisão, dependendo da gravidade do espancamento a que tinham sido submetidas. Quem recebia alta do hospital era automaticamente transferido para a prisão de Bolzaneto, nos arredores de Gênova. Na prisão, o total de 93 presos foram torturados e humilhados, forçados a repetir frases como "Viva il Duce", saudando Mussolini, ou a reproduzir a saudação nazista.

Dois meses após Gênova, os eventos de 11 de setembro trouxeram uma nova imposição tanto às organizações dos governos nacionais quanto ao movimento de resistência global. Uma onda de "combate ao terror", capitaneada pelo governo Bush, teve campo e foi apoiada por parte da opinião pública. A nova tarefa do coro dos dissidentes foi a de incluir em suas agendas de reivindicações uma severa oposição às Guerras no Afeganistão e no Iraque. Ainda assim, a relação entre forças do capitalismo corporativo e seus oponentes nunca mais teve a mesma configuração.  
 
Bibliografia
BUCCI, Eugênio. O olho da gente no olho do furacão. Disponível em <http://jbonline.terra.com. br/destaques/g8/g82607olho.html> Acesso em 01 de fevereiro de 2006.
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
FERRUCCI, Alberto. Per una Globalizzazzione Solidale - Documento di Genova. (For a Global Agreement - Genoa Declaration). Roma: Città Nuova, 2001.
HIGHLEYMAN, Liz. The Global Justice Movement. Disponível em <http://www.black-rose.com/articles-liz/globjustice.html>   Acesso em 01 de outubro de 2005.
LUDD, Ned. Urgência das Ruas. São Paulo: Conrad, 2002. Col. Baderna.
PARAVIDINO, Fausto. Genova 01. Tradução de Raquel Brumana. Mensagem pessoal recebida por <fabiosalvatti@gmail.com> em 15 de novembro de 2005.
RYOKI, André e ORTELLADO, Pablo. Estamos Vencendo. São Paulo: Conrad, 2004. Col. Baderna.
SOLOMON, Norman. "Dancing on the grave of Carlo Giuliani". Disponível em <http://www.carlo-giuliani.com/dancingonthegrave.htm> Acesso em 01 de fevereiro de 2006.

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